Em nossas publicações anteriores temos enfatizado o custo da incompetência em gestão estratégica e de projeto no âmbito do sistema de ensino em nosso país. A atual situação do ENEM concretiza em números o valor dessa incompetência como informa o jornal O Estado de São Paulo: Contratos milionários marcam o Enem
Só em gastos fixos que envolvem impressão, transporte, elaboração e correção, o Ministério da Educação (MEC) assinou contratos que somam no mínimo R$ 215 milhões para o ENEM 2010.
O Enem também foi marcado por contratos sem licitação.
- Convênio Cespe/Cesgranrio: R$ 128 milhões;
- Correios: R$ 18 milhões
As falhas reconhecidas até o momento apontam inépcia em todo o escopo do projeto:
- Falha na seleção do projeto: não houve, pelo menos em parte, licitação.
- Falhas na elaboração da prova: incorreções em questões quanto a conteúdos conceituais – erros conceituais, informações incorretas - e procedimentais – questões sem respostas ou com mais de uma alternativa de resposta correta, assim como, imprecisão na redação de enunciados com incorreção na pontuação dos textos das questões;
- Falhas de impressão: cabeçalhos invertidos e ausência de até nove questões nas provas amarelas;
- Falhas na aplicação: não cumprimento das normas que regulamentaram a aplicação das provas em alguns locais onde foram realizados os exames - os fiscais não garantiram a proibição do uso de relógios, telefones e lápis pelos alunos durante a realização da prova, assim como não prestaram informações devidas sobre o horário;
- Falha em logística: houve espaço selecionado para a aplicação da prova que por queda na energia deixou os alunos impossibilitados de iniciarem a prova por cerca de duas horas;
- Falha na segurança: há indícios de vazamento do tema da redação.
Essa sequência de falhas demonstra que não houve pelos gestores do projeto do Enem 2010, o imprescindível refinamento acurado dos seus requisitos o que determinou improvisação no planejamento e na execução levando-o ao fracasso quanto ao seu objetivo: avaliar as competências necessárias para o acesso às universidades federais de 4,6 milhões de estudantes que se prepararam pelo menos ao longo de um ano para o ingresso no Ensino Superior.
Se o projeto estava fadado ao fracasso pela incompetência gestora, múltiplos são os seus desdobramentos.
Qual é o significado da experiência da aprendizagem dos alunos na participação dessa avaliação?
A percepção clara da falta de respeito à dignidade da pessoa do estudante e das suas famílias no aqui e no agora do exame e no que diz respeito às suas expectativas de futuro, assim como, a falta de compromisso do setor público com a qualidade do serviço prestado ao cidadão.
Embora a formação para a cidadania esteja na pauta do discurso pedagógico do nosso sistema de ensino (vide o tema proposto na prova para a redação: “Trabalho na construção da dignidade humana” tendo dois textos de apoio sobre trabalho escravo e futuro do trabalho), a prática da cidadania por aqueles que têm a responsabilidade de garantir qualidade ética, conceitual e técnica no trabalho do projeto da avaliação do Ensino Médio , demonstra absoluta incongruência entre discurso e ação.
Nessa perspectiva, os R$ 215 milhões investidos pelo MEC nesse Enem dão conta apenas de uma pequena parcela dos prejuízos causados à sociedade. Não é suficiente considerar que esse montante foi arrecadado do contribuinte afetando a sociedade como um todo, há também que se considerar os investimento de tempo e recursos pessoais, materiais e financeiros das famílias e dos seus filhos: 4,6 milhões de jovens ao longo de no mínimo um ano de preparação, muitos superando grandes dificuldades na busca de uma formação que lhes permita trabalhar construindo a dignidade humana em nosso país. Assim, os mais deletérios prejuízos, esses sim incalculáveis, são os que limitam sonhos, esperanças e projetos de vida determinando permanências históricas de desrespeito à dignidade humana.