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Por Carmen Bragança em 7 de August de 2008

É UM ESPANTO! Enquanto celebramos o avanço de 44,19% para 51,89% da faixa social intermediária, que inclui brasileiros com renda mensal domiciliar entre R$ 1064,00 e R$ 4591,00, assistimos, pasmos, a iniciativa do Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Educação - Consed – de tentar reverter a lei do piso salarial do professor de R$ 950,00 para 40 horas semanais, (vide matéria no Portal do Aprendiz:  Mec avaliará impacto de piso de professor) lembrando ainda, que nesse vergonhoso piso incorrem os descontos previstos em lei.

São dois, os pontos questionados pelos secretários estaduais de educação:

  1. A exigência da lei de um terço de hora atividade para planejamento das aulas.
  2. A determinação de que os R$ 950,00 previstos sejam realmente um piso e não incluam abonos e gratificações.

O primeiro questionamento demonstra o total desconhecimento do ofício do professor, justamente daqueles que deveriam conhecê-lo porque são os gestores maiores da rede pública de ensino e os responsáveis pela qualidade da Educação nos Estados. Cabe, portanto, esclarecê-los.

O planejamento estratégico para a qualidade de uma aula implica em:

  1. Avaliação da experiência da aprendizagem do grupo classe e de cada aluno na aula anterior em relação aos objetivos do planejamento periódico e anual:
    1. Avaliação do material produzido pelos alunos na aula anterior.
    2. Avaliação dos registros de observação do professor da aula anterior.
  2. Definição de objetivos que ampliem a experiência da aprendizagem da aula anterior a partir da identificação dos pontos fortes e dos que devem ser melhorados individual e coletivamente.
  3. Definição de estratégias que viabilizem o alcance dos objetivos definidos para a aula.
  4. Seleção de atividades: sensibilização, exercício de aprendizagem individual e coletivo, e avaliação do processo da aula.
  5. Seleção e produção de material didático de qualidade que atenda aos requisitos do aqui e do agora da experiência de aprendizagem na aula: textos em diferentes linguagens, material de avaliação – produção dos alunos e registros de observação do professor.
  6. Cronograma da aula: distribuição e fluxo das diversas atividades no tempo da aula.
  7. Documentação do plano de aula.

Além da elaboração dos planos de aula, os professores devem participar de reuniões pedagógicas e de processos de formação permanente. Doze horas semanais para vinte e oito horas de aulas não atendem aos requisitos da atividade docente, mas indicam um novo olhar.

A gestão que não considera o tempo necessário para essas atividades inerentes à qualidade do desempenho do professor, reduz a atividade docente à improvisação: a realidade atual.

O segundo questionamento dos secretários nos remete à questão da gestão dos recursos públicos. Novamente, a improvisação: abonos e gratificações não são incorporados ao salário podendo ser concedidos, modificados ou retirados ao bel prazer dos interesses do momento, seja por questões político partidárias, eleitoreiras e da má gestão dos investimentos em geral e da educação em particular: o discurso da falta de recursos para o cumprimento da lei do piso salarial do professor não se sustenta – suportamos uma das maiores cargas tributárias do planeta enquanto assistimos aos péssimos resultados dos nossos alunos nas avaliações do PISA – vide comentário postado nesse blog: R$ 2 bilhões, educação e governo. Resultado? (21 de junho de 2008).

O que está subjacente a esses questionamentos é a falta de compromisso com a humanidade da pessoa – por isso com a qualidade da educação – revelada pela incompetência de gestão. Cabe ao legislador reafirmar a lei, que se ainda não define uma solução, aponta para um novo horizonte.

3 Comentários sobre “Professor: cidadão brasileiro condenado à pobreza?”

  1. Carmen,

    O espanto torna-se maior quando verificamos que não se trata de uma desvalorização da educação, do ponto de vista dos valores da sociedade. A reprise do Globo Reporter, hoje, 9 de agosto, no Globo News, mostrou o Brasil que progride. A reportagem dizia respeito às cidades do interior e às pessoas oriundas de famílias de agricultores, na sua maioria sem instrução, que se sacrificaram para estudar. Em alguns casos a família toda se sacrificou para o estudo de um dos seus membros.
    Os salários médios nesse “Brasil que prospera” é de quatro salários mínimos, ou seja, R$ 1.200, 00.
    É de espantar que o Estado não se alinhe aos valores do Brasil que prospera, mas ao do Brasil que repetir políticas de atraso!!!!

    É de espantar mais aqueles que são da geração que leu Geopolítica da Fome do Josué de Castro.

    É de espantar que secretários de estado sejam contra a lei que leva em conta valores monetários do “Brasil que progride” (é claro que para isso o valor de R$ 900,00 precisará ser reajustado em 2010); que se alinhem a uma estratégia de criação de pobreza. Esses que ainda têm coragem de se dizerem modernos e com programas voltados para o social!!!!

  2. Na linha do texto acima, quero contribuir juntando minha palavra à dos indignados. Em minhas intervenções na tribuna da Assembléia Legislativa, reitero repetidamente que não estamos alheios a isso, que também nos espantamos ante as reações e os encaminhamentos do Executivo. Quero aproveitar esse espaço de diálogo para alertar que a má qualidade do ensino paulista pode contaminar o País.

    Rui Falcão, 64 anos, advogado e jornalista, é deputado federal pelo
    PT.

  3. Nós, da equipe Diálogo, entendemos que a Educação é uma questão de Estado. Reduzi-la a questões de governo e ainda mais a querelas político-partidárias significa não compreender a magnitude da sua dimensão.
    Todos os gestores dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, que fundamentam o Estado de Direito, têm a missão de buscar o consenso através da reflexão crítica focada no bem comum com o objetivo de construírem um projeto de qualidade para a Educação no país.