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Por Teresa Van Acker em 22 de July de 2008

O Portal Aprendiz publicou na semana passada um texto inquietante. Nele não há qualquer novidade a não ser lançar luzes sobre o que é deveras familiar e por isso inquieta. O texto, assinado por Vivian Lobato, apresenta as conclusões da pesquisa de mestrado de Nádia Leite, da Universidade de Brasília, orientada por Wanderley Codo, sobre a constatação da Síndrome de Burnout em 15,7% dos professores da rede pública da região do Centro-Oeste do país. A pesquisadora enfatiza que são sintomas do burnout, cansaço, esgotamento, falta de motivação, além de despersonalização que acarreta o afastamento em relação aos alunos. Esclarece também que o nome da síndrome faz referência ao tom hostil e irritado apresentado por quem é acometido por esse mal que implica em desequilíbrio e estresse emocional.

Inquietante e familiar. Essa síndrome é conhecida pelos pesquisadores em educação desde a década de 70 do século passado e entre nós a partir dos anos 90, principalmente através das pesquisas de Wanderley Codo, da UnB. Nos cursos de pós-graduação, nós já líamos esses textos, e, em cursos de graduação de pedagogia, quando o tema é abordado com alunos que já são professores, muitos deles identificam que já manifestaram a síndrome. Entretanto a leitura da pesquisa nos inquietou. Por quê?

Talvez porque o fato, apesar de conhecido por especialistas em pedagogia, parece estar longe de interrogar os educadores e os políticos a respeito da sociedade em que vivemos. Frequentemente, os sintomas apresentados acima são considerados frutos do despreparo de profissionais para os desafios que a realidade escolar lhes impõe, ou ainda, fraqueza e incompetência de alguns professores que não conseguem se imporem. Assim, consideramos o fato “normal” e o tratamos como uma doença individual de alguns.

Porém, à medida que levamos em conta os dados da pesquisa de Nádia Leite sobre o número de pessoas que provavelmente são acometidas por  essa doença, já não podemos pensar em indivíduos doentes, e perguntamo-nos sobre a saúde social.  Daí o estranhamento e sobretudo a inquietação. Vivemos em uma sociedade na qual a interação dos profissionais do setor da educação com seu ambiente de trabalho tem provocado um número considerável de casos de desinteresse, esgotamento, falta de motivação e em conseqüência o distanciamento dos professores em relação aos alunos.  Não é de se espantar que haja professores que não dão conta do trabalho ou que para fazê-lo minimamente precisam mobilizar uma grande energia, o que acaba por provocar outras doenças, o que a pesquisa também aponta. A inquietação aumenta quando lemos o  que pesquisadora considera como parte do tratamento da síndrome a partir dos dados coletados:  companheirismo e cooperação no trabalho já que a “freqüência de exaustão entre indivíduos sem suporte é quase o dobro da verificada em professores que se sentem apoiados. Quanto à despersonalização e à realização profissional reduzida, os dados seguem a mesma tendência: a incidência desses sintomas é três vezes maior entre os professores que não se sentem amparados pelos colegas”. Com certeza, vale a pena ler toda a matéria do portal Aprendiz.

O que nos parecia tão familiar deixa de ser, e nos lembramos que já sabíamos, há tempos, que nada garante ou promove o companheirismo e a cooperação a não ser uma gestão da escola que valorize os educadores como equipe, acolha os projetos e as lideranças emergentes e fortaleça o ambiente de coleguismo e não o de competição. É assim nas escolas públicas onde os horários de trabalho coletivo são de fato ligados a projetos de grupos e não apenas reuniões marcadas para cumprir a legislação.

Conhecemos também casos dessa síndrome entre professores de escolas particulares, ainda que não se tenha conhecimento de dados empíricos como esses revelados pela pesquisadora da UnB. Sabemos também que muitas escolas particulares no Estado de São Paulo não têm horários coletivos de reunião, não há apoio ao trabalho de equipes de professores, muitas vezes consideradas peças de uma engrenagem que, automaticamente, se juntam e funcionam como uma máquina bem lubrificada.

Sabemos também que os sindicatos concentram sua luta na questão salarial que é importante, pois os baixos salários constituem outro sintoma de “doença” social: a desumanização paulatina, na medida em a sociedade vem considerando a educação um serviço ou uma mercadoria como outra qualquer e inferior, por exemplo, ao trabalho nas áreas jurídica e policial. Essa percepção de algo familiar nos leva à inquietante revelação de que às disputas e à defesa legal dá-se mais importância do que à formação dos cidadãos para o convívio pacífico. Porém, quando o foco da luta sindical deixa de ser a profissão docente considerada de um ponto de vista global, também o sindicato deixa de valorizar a educação como atividade humanizadora. É esse quadro que nos faz pensar que a questão não é de doença, não se resolve no campo da psicologia ou da psiquiatria, mas é uma questão de gestão social da educação. Entendemos a gestão da educação como o planejamento e a execução de projetos orientados pela práxis e pelo comprometimento com valores humanos e humanizadores que não estão  presentes nos discursos da mídia,  dos gestores da educação e das políticas públicas. Vide comentário anterior postado nesse blog.

5 Comentários sobre “A síndrome de Burnout: doença ou sintoma?”

  1. Parabéns pelo texto, porém gostaria fazer duas observações. A primeira, diversos sindicatos de professores brasileiros, inclusive a CNTE e a CONTEE por diversas vezes se manifestaram sobre a questão, inclusive promovendo algumas campanhas de esclarecimento, questionando percepções que tratam a síndrome como um mal individual e não um resultado de condições gerais de trabalho. A segunda, é que não apenas nas escolas públicas ou particulares do ensino fundamental e médio que encontramos ocorrência da síndrome. Nas instituições de ensino superior, embora de forma menos divulgada, também encontramos suas manifestações, geralmente relacionadas a formas autoritárias de gestão – mesmo quando disfarçadas por discursos pseudo-democráticos – e de constituição de formas oligárquicas de domínio institucional, lamentavelmente cada vez menos incomuns no cenário universitário brasileiro.
    Mas, observações à parte, novamente gostaria de parabenizar os promotores do site, pela abertura da questão à discussão

  2. Como não foi identificado o autor, parabenizo à equipe dessa página eletrônica pelo excelente comentário sobre a minha pesquisa relacionada com a síndrome de burnout em docentes. A maturidade com que questões amplas foram vislumbradas foi para mim confortadora, pois na maioria dos comentários sobre o meu trabalho percebi uma tendência de buscar enxergar fatores pontuais. Inegável que o suporte social dos pares, identificado pela pesquisa como elemento importante na profilaxia e tratamento de burnout, passa pela gestão institucional que tem o poder tanto de incentivá-lo quanto de dificultá-lo.

  3. Quero registrar aos responsáveis pela página ,que senti-me muito mais orientada pelo que venho passando ao longo de dois anos de afastamento por motivo de depressão.Não conseguia entender o desânimo e as crises de choro que me acometiam ao lembrar-me do quanto fui engajada em realizar um excelente trabalho junto aos meus aluno,e nunca ter sido reconhecida.
    A frustração andando continuamente comigo e deixando-me com a sensação de ter feito a escolha mais errada de minha vida:tornar-me educadora.
    Obrigada pelo esclarecimento desse pesado sentimento e frustração que tenho carregado comigo.

  4. Guilhermina,

    Desculpe a demora em responder. Ficamos felizes em poder contribuir. Seria muito importante que você pudesse compartilhar essa experiência com alguém que pudesse escutar você e que compreendesse a problemática.
    Saiba também que ler o seu depoimento nos deu energia e aumentou a nossa vontade de criarmos possibilidades concretas para atendermos professores e, especialmente, grupos de professores que estejam na sua situação.
    Se quiser entrar em contato conosco, dependendo da cidade em que morar, poderemos pensar juntas como você poderia ser auxiliada a ultrapassar esse sofrimento.

    Um grande abraço,

    Teresa Van Acker (tvanacker@dialogo.psc.br)

  5. Gostaria de parabenizar a Diálogo pela coerência e responsabilidade pela qual aborda temas relativos à educação.
    Sempre trazendo a luz, propondo discussões de temas relevantes e de interesse público vocês sempre indicam possíveis caminhos fundamentados nos princípios éticos e de gestão democrática. Atualmente a escola tem sido palco de inúmeros programas e projetos governamentais que se pautam em trabalhar temas pontuais, fragmentados do contexto escolar. Dado a transformação social e a falta de politicas publicas educacionais as escolas tem enfrentado um processo de reconfiguração constante que somado a má qualidade na formação docente e desvalorização do educador tem culminado com o adoecimento deste profissional da educação básica ao ensino superior.
    Gostaria de finalizar compartilhando uma experiência do município que trabalho no Estado de Goiás que basicamente se constitui por mudanças desastrosas e retirada de direitos com a reformulação do Plano de Cargos e Salários dos Trabalhadores em Educação, o desamparo Sindical, a falta de gestão democrática com diretores “chefes” indicados pelo Secretário de Educação municipal …
    Depois destas mudanças observou-se que o número de faltas dos professores aumentou estrondosamente e a pericia médica municipal constatou que os afastamentos estavam se dando por motivos de saúde emocional e mental. O que fizeram então os gestores públicos?
    A exemplo do que têm feito com a educação ao longo do tempo propuseram uma terapia em grupo, isto é, continuam “combatendo” ineficazmente os efeitos e fechando os olhos para as causa. Resultado, educação com um nível cada vez pior e educadores cada vez mais adoecidos. Portanto, novamente parabenizo a Dialogo por nos proporcionar oportunidade de refletirmos contextos tão pontuais.